O tratamento cirúrgico tem passado também por importantes
transformações. Antes da década de 1970,
o tratamento padrão era a mastectomia radical, cirurgia
extensa, mutilante, que invariavelmente levava a grandes sequelas
e prejuízos para a paciente, seja no campo da reabilitação
motora e funcional, como no campo social, afetivo e psicológico.
A partir de meados da década de 1970, a cirurgia conservadora
da mama mostrou, para os casos iniciais, ser equivalente às
mastectomias radicais, do ponto de vista de tratamento oncológico.
Foi um grande avanço para as pacientes, reduzindo muito
o impacto social e psicológico negativo da cirurgia praticada
até então. No entanto, mesmo as cirurgias conservadoras
da mama apresentam sequelas importantes para a paciente, principalmente
pelo fato de incluírem também a dissecção
da axila. O câncer de mama, na quase totalidade de casos,
se dissemina inicialmente para os gânglios linfáticos
ou linfonodos da axila. A dissecção da axila, também
chamada de linfadenectomia axilar ou axilectomia, sempre foi considerada
parte muito importante do tratamento cirúrgico do câncer
de mama, pois nos permite determinar se o tumor já apresenta
ou não disseminação para os linfonodos e
este dado é fundamental para determinar o prognóstico
e programar o tratamento adjuvante, ou seja, a necessidade de
quimioterapia, hormonioterapia e radioterapia.
O maior problema existente em relação à
dissecção axilar é a alta morbidade do procedimento,
ou seja, existem inúmeras complicações inerentes
ao procedimentos cirúrgico, entre elas o linfedema ou edema
de braço, limitação de movimentação
da articulação do ombro, dor crônica e alterações
da sensibilidade do braço e axila.
Para os tumores iniciais e menores que 2,0 cm a incidência
de disseminação ou metástase para os linfonodos
da axila é freqüentemente baixa, variando de 3 a 10%,
sendo menor quanto menor o tamanho de tumor. Portanto, para mais
de 90% das pacientes com tumores iniciais da mama, a dissecção
da axila seria desnecessária, pois os linfonodos não
estariam invadidos pelo tumor.
Com base nestes dados, existe hoje um novo desafio na abordagem
do tratamento do câncer de mama: tentar estabelecer com
segurança se existe ou não o comprometimento dos
linfonodos axilares sem a realização da dissecção
cirúrgica completa.
Dentre os métodos modernos de investigação
do comprometimento axilar, existe o estudo do linfonodo sentinela,
que representa o primeiro linfonodo que recebe toda a drenagem
linfática da região do tumor e conseqüentemente,
se ele não estiver comprometido por células do tumor,
todos os outros também não estariam e não
haveria necessidade de se realizar a dissecção axilar
completa, diminuindo-se assim as sequelas do tratamento cirúrgico
para o câncer de mama.
Estudos realizados em todo o mundo mostram que este conceito
é valido para 95% dos casos de tumores de mama de até
2cm sem evidência clínica de comprometimento axilar.
O método mais eficiente para identificar o linfonodo sentinela
é através da injeção de substâncias
marcadas com substâncias radiotaivas, que não causam
nenhum problema para a paciente, injetadas na região do
tumor na mama. Após a injeção desta substância,
seu trajeto é documentado por imagens de cintilografia
em diferentes tempos até que o linfonodo sentinela seja
identificado.
As partículas marcadas permanecem retidas nos linfonodos
por tempo suficientemente prolongado para permitir a detecção
da radioatividade através de uma sonda ( chamada de “probe”
) no momento da cirurgia. O probe é uma sonda portátil
que detecta raios gama e o seu uso durante a cirurgia é
inócuo e permite a identificação do linfonodo
sentinela em poucos minutos. A incisão cirúrgica
para é mínima, cerca de 2-3 cm e com isto praticamente
não acarreta seqüelas para a paciente.
Uma vez identificado, o linfonodo sentinela, ele é analisado
pelo patologista e se ele estiver livre de células tumorias,
não é feita a dissecção axilar. Por
outro lado, se existir o comprometimento por células tumorais,
o cirurgião fará a cirurgia convencional.
Portanto, para os tumores iniciais de mama, a pesquisa do linfonodo
sentinela justifica-se por predizer corretamente o comprometimento
axilar em até 95% dos casos, com uma cirurgia minimamente
invasiva, o que diminui as sequelas motoras, funcionais e de sensibilidade,
secundárias à cirúrgia convencional do câncer
de mama.