Apesar da excelência da cirurgia plástica
praticada no país, alguns pontos em relação
às próteses mamária devem ser discutidos. A
opinião e avaliação do mastologista frente
à uma mulher que fez a opção pela colocação
da prótese mamária de silicone deve ser estimulada
e considerada.
Em relação ao silicone propriamente
dito, não há nenhuma evidência que possa estimular
algum processo carcinogênico, ou seja, estimular a formação
de células cancerígenas. Portanto, é um material
biologicamente seguro.
Basicamente as próteses são inseridas
atrás da glândula mamária (retro-glandular)
ou atrás do músculo peitoral maior (retro-peitoral).
Independente do local de inserção, a incisão
na pele geralmente é feita na região peri-areolar,
na axila ou no sulco mamário, dependendo muito da habilidade
do cirurgião plástico assim como tamanho da mama e
prótese, forma da mama, etc... Existem algumas diferenças
importantes entre estas duas modalidades. Via de regra, a colocação
retro-glandular é tecnicamente mais simples, dispende menos
tempo cirúrgico, menos dor e complicações como
sangramentos no pós operatório. Oferece também
ao cirurgião plástico mais opções quanto
ao formato da mama desejado. Já a colocação
retro-peitoral é mais trabalhosa, cursando com mais dor no
pós-operatório e com recuperação mais
lenta. Logicamente existem casos com indicação precisa
para um ou outro tipo de técnica, mas a pergunta que se faz
é: do ponto de vista da saúde das mamas, qual é
a melhor abordagem ?
Sabemos hoje que o câncer de mama representa
o tumor maligno mais frequente entre as mulheres, sendo o responsável
por cerca de 20% de todos os casos novos de tumores malignos na
população. Estima-se que 1 em cada 8 mulheres pode
vir a ter o câncer de mama se levarmos em conta uma expectativa
de vida de mais de 80 anos. É uma doença que vem aumentando
sua incidência ano a ano, em todas as faixas etárias.
No Brasil espera-se para esta ano cerca de 41.500 casos novos e
13.000 óbitos pela doença. Portanto, um número
cada vez maior de mulheres pode vir a apresentar esta doença.
E qual a relação destes dados com a prótese
de mama?
Já foi citado que o silicone é biologicamente inerte,
portanto, a prótese não causará ou aumentará
a incidência do câncer de mama. No entanto, quando avaliamos
o diagnóstico de lesões de mama, as próteses
de silicone retroglandulares podem atrapalhar a avaliação
diagnóstica, principalmente através da mamografia,
por mascarar eventuais lesões mamárias, especialmente
aquelas muito pequenas.
Existem técnicas próprias e incidências
diferenciadas de mamografia para estes casos, minimizando estes
problemas, mas, contudo, nem sempre são realizadas nos serviços
de radiologia. Além do mais, sabemos que é a mamografia
o método de eleição para o diagnóstico
de lesões iniciais e não há outro capaz de
substituí-lo, como a ecografia entre outros.
Um outro ponto importante é que grande parte
dos procedimentos diagnósticos disponíveis para avaliar
uma lesão de mama baseia-se na inserção de
catéteres ou agulhas especiais (procedimentos percutâneos)
que têm como objetivo puncionar, biopsiar ou até mesmo
extrair a lesão suspeita. Quando uma paciente tem prótese
de silicone retro-glandular, estes procedimentos encontram uma limitação
grande, principlamente quando as lesões são muito
próximas das próteses, pelo risco de lesão
ou contaminação destas. Portanto, não há
dúvidas em que a colocação da prótese
na região retro-peitoral traz menos dificuldades do ponto
de vista de diagnóstico mamográfico e procedimentos
percutâneos na mama do que a inserção retro-glandular.
Atualmente, um número grande de mulheres
acima de 35 anos têm procurado os cirurgiões plásticos
para inserção de próteses mamárias.
Esta é uma faixa etária onde as lesões e os
tumores de mama começam a surgir. É fundamental que
esta mulher faça uma avaliação criteriosa das
mamas para descartar a presença de qualquer lesão
suspeita antes da cirurgia estética.
Portanto, para a mulher que deseja a colocação
de prótese mamária de silicone é importante
a abordagem do mastologista, que poderá realizar avaliação
criteriosa de risco individual e familiar daquela paciente em desenvolver
câncer de mama, assim como avaliação de eventuais
lesões já existentes. Após esta avaliação,
a paciente deve ser informada dos prós e contras de cada
técnica para posteriormente poder discutir com seu cirurgião
plástico a melhor abordagem para o caso em questão.
Apesar de ser uma cirurgia atualmente muito em evidência e
realizada de maneira indiscriminada por todo o país, sua
indicação deve estar respaldada em uma série
de critérios técnicos que não somente o estético.
Dr. Renato Torresan
Instituto de Mama Campinas